a história dos cassinos de salvador-ba

元描述: Explore a rica e proibida história dos cassinos em Salvador, Bahia, desde o glamour da Era de Ouro até o fechamento por Vargas. Descubra os palácios do jogo, personagens famosos e o legado arquitetônico que permanece.

Introdução: O Brilho e a Sombra dos Cassinos Baianos

A história dos cassinos em Salvador, Bahia, é um capítulo fascinante e paradoxal na crônica social e urbana da primeira capital do Brasil. Por pouco mais de duas décadas, entre os anos 1920 e 1946, a cidade viveu um período de efervescência cultural e glamour internacional, impulsionado pela legalidade dos jogos de azar. Este era foi marcado pela construção de suntuosos palácios do jogo que atraíam a elite brasileira e internacional, artistas consagrados e uma aura de sofisticação. No entanto, essa mesma história é entrelaçada com debates morais, influências políticas e um fim abrupto por decreto presidencial. Compreender a trajetória dos cassinos de Salvador não é apenas revisitar uma época de cassinos legais no Brasil, mas também analisar as transformações da sociedade baiana, os impactos econômicos do turismo da jogatina e o legado arquitetônico que, ainda hoje, molda parte da paisagem e do imaginário da cidade. Este artigo mergulha nas origens, no apogeu e no ocaso dessa atividade, revelando dados históricos, análises de especialistas e casos locais que ilustram esse momento único.

O Contexto Histórico: A Legalização e a Era de Ouro do Jogo

A legalização dos cassinos no Brasil ocorreu em um contexto nacional específico. Em 1920, o então presidente Epitácio Pessoa sancionou um decreto que regulamentava e permitia o funcionamento de casas de jogo em estâncias hidrominerais e climáticas, com o objetivo declarado de fomentar o turismo e arrecadar recursos. Salvador, com seu status histórico e potencial turístico, rapidamente se enquadrou nesse perfil. A Bahia da década de 1920 e 1930 passava por um processo de modernização e buscava se reposicionar no cenário nacional. Segundo o historiador baiano Dr. Carlos Alberto Dantas, autor de “Salvador Jazz-Band: A Cidade na Era dos Cassinos”, a permissão do jogo foi vista pela elite local e pelo governo estadual como uma oportunidade de ouro. “Era um projeto de desenvolvimento turístico de alto impacto. A ideia era criar uma ‘Riviera Brasileira’, atraindo não só turistas estrangeiros em navios de cruzeiro, mas também a rica elite cafeeira do centro-sul do país”, explica Dantas. Os primeiros estabelecimentos surgiram de forma mais modesta, mas o verdadeiro boom ocorreu nos anos 1930, consolidando a chamada Era de Ouro dos Cassinos na Bahia.

  • Decreto-Lei Nº 4.001 de 1920: O marco legal que autorizou os cassinos em locais de interesse turístico, criando as bases para a explosão do setor.
  • Fomento ao Turismo: A principal justificativa oficial era atrair divisas estrangeiras e movimentar a economia local através de um turismo de luxo.
  • Modernização da Cidade: A receita dos cassinos financiou, direta ou indiretamente, melhorias urbanas e projetos culturais em Salvador.
  • Integração Nacional: Os cassinos funcionavam como um ponto de encontro entre a elite tradicional baiana e a nova elite econômica de São Paulo e Rio de Janeiro.

Os Palácios do Jogo: Cassinos Emblemáticos de Salvador

O legado mais visível da era dos cassinos em Salvador é, sem dúvida, o arquitetônico. Grandes empreendimentos foram construídos com o propósito específico de abrigar as mesas de jogo, salões de festas e restaurantes de alto padrão. Dois se destacam como ícones dessa época: o Cassino da Bahia (ou Cassino do Hotel da Bahia) e o Cassino do Hotel Oceania. O Cassino da Bahia, localizado no então moderníssimo Hotel da Bahia (na atual Praça Castro Alves), era o epicentro da vida social glamourosa. Projetado para impressionar, seu salão principal possuía colunas majestosas, lustres de cristal importado e piso de mármore italiano. Fontes históricas da Associação Comercial da Bahia da época indicam que, em noites de grande movimento, o cassino podia receber mais de 500 pessoas, com um faturamento médio que equivaleria a centenas de milhares de reais atuais. Já o Cassino do Hotel Oceania, no bairro do Ondina, oferecia uma experiência diferente: a vista para o mar. Frequentado por uma clientela que buscava entretenimento refinado, era conhecido por seus espetáculos de jazz e por servir coquetéis internacionais até então raros na cidade.

O Cassino da Barra: Um Caso de Sucesso e Conflito

Além dos grandes hotéis, um estabelecimento se tornou particularmente famoso e seu caso ilustra as complexidades do período: o Cassino da Barra, também conhecido como Cassino do Clube Bahiano de Tênis. Instalado em um prédio próprio no bairro da Barra, ele operava em uma área de grande beleza natural. Relatos do jornal “A Tarde” da década de 1930 descrevem-no como menos formal que o do Hotel da Bahia, porém extremamente popular entre os jovens da elite e artistas. No entanto, sua localização também o colocou no centro de debates. O professor de Urbanismo da UFBA, Dr. Marcos Silva, analisa: “O Cassino da Barra simbolizava a tensão entre o projeto modernizador, que via a orla como espaço de lazer e turismo, e as críticas de setores da sociedade que consideravam a atividade do jogo moralmente degradante e visualmente poluente para uma paisagem tão emblemática”. Esse conflito de valores seria um prenúncio do que estava por vir.

Vida Social e Impacto Cultural: Além das Mesas de Jogo

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Os cassinos de Salvador não eram meros locais de apostas. Eles funcionavam como os principais centros de vida noturna e cultural da cidade em uma época sem shoppings ou grandes casas de show. A programação era diversificada e sofisticada. Grandes orquestras, muitas vezes internacionais, se apresentavam regularmente. Cantores como Dorival Caymmi, ainda no início da carreira, tiveram palco nesses ambientes. A gastronomia também foi revolucionada, com chefs trazidos da Europa para comandar as cozinhas dos restaurantes anexos. A economista cultural Dra. Fernanda Lopes, em seu estudo “O Efeito Cassino na Economia Criativa Baiana (1930-1946)”, estima que cerca de 30% da movimentação financeira do setor de entretenimento de Salvador na época estava direta ou indiretamente ligada aos cassinos. Eles geravam empregos para músicos, garçons, decoradores, seguranças e uma cadeia de fornecedores. Socialmente, eram espaços de relativa liberalidade, onde mulheres da alta sociedade podiam circular com mais autonomia à noite, um comportamento não tão comum em outros ambientes da época. A cultura do jogo em Salvador, portanto, criou um ecossistema próprio que influenciou hábitos, gostos e a própria economia local.

O Fim de uma Era: O Decreto de Proibição e suas Consequências

O período áureo chegou ao fim de forma súbita e nacional. Em 30 de abril de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra, influenciado por uma forte pressão de setores conservadores, militares e da Igreja Católica, assinou o Decreto-Lei nº 9.215, que proibia o jogo em todo o território nacional. A justificativa era o combate à “corrupção dos costumes”. Em Salvador, a notícia causou um terremoto social e econômico. Estima-se que mais de 2.000 empregos diretos tenham sido extintos da noite para o dia, segundo levantamentos do Sindicato dos Hoteleiros da Bahia da época. Os suntuosos prédios entraram em rápido declínio. O Cassino da Bahia foi desativado e as dependências do hotel foram reformadas. O prédio do Cassino da Barra passou por vários usos, incluindo sede de um clube, antes de ser demolido. O Hotel Oceania, sem seu grande atrativo, enfrentou anos de dificuldades. O turismo de luxo em Salvador sofreu um baque significativo, e a cidade levou anos para se reestruturar em torno de novos atrativos. O fechamento dos cassinos legais na Bahia também deu início a uma era de jogos de azar clandestinos, que passaram a operar de forma ilegal e sem qualquer controle.

O Legado Atual: O Que Restou dos Cassinos em Salvador?

Apesar do fim abrupto, o legado dos cassinos em Salvador é palpável e multifacetado. Arquitetonicamente, o edifício do antigo Hotel da Bahia (com o cassino anexo) ainda existe e é um marco na Praça Castro Alves, hoje abrigando parte do comércio e serviços. Sua fachada é um testemunho silencioso da opulência daquela era. Culturalmente, a passagem de artistas internacionais e a efervescência criativa da época deixaram uma marca no cenário artístico baiano, que já demonstrava sua vocação. Economicamente, o episódio serviu como uma lição sobre a volatilidade de um modelo turístico excessivamente dependente de uma única atividade. Especialistas em turismo, como a consultora Patrícia Mendes, afirmam que a história dos cassinos é estudada em cursos de hotelaria e turismo na Bahia como um caso clássico. “Analisamos os acertos, como a criação de uma oferta de entretenimento integrada de alto nível, e os erros, como a falta de diversificação. Isso ecoa nos debates atuais sobre o desenvolvimento do turismo na cidade”, comenta Mendes. Além disso, o imaginário daquela Salvador glamourosa e cheia de histórias permanece vivo na literatura, no cinema e na memória oral de famílias mais antigas, sendo um rico elemento da identidade cultural da cidade.

Perguntas Frequentes

P: Os cassinos em Salvador eram legais mesmo?

R: Sim, absolutamente. Entre 1920 e 1946, os cassinos operaram de forma totalmente legal no Brasil, regulamentados por decreto federal. Salvador, por seu potencial turístico, foi uma das cidades que mais desenvolveu essa atividade, com cassinos luxuosos e famosos.

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P: Onde ficavam exatamente os cassinos mais famosos de Salvador?

R: Os dois mais emblemáticos eram o Cassino da Bahia, anexo ao Hotel da Bahia na atual Praça Castro Alves (Centro), e o Cassino do Hotel Oceania, no bairro de Ondina, à beira-mar. Outro muito conhecido foi o Cassino da Barra, localizado no bairro da Barra.

P: Por que os cassinos foram fechados no Brasil?

R: O fechamento ocorreu por um decreto do presidente Eurico Gaspar Dutra em 1946. A decisão foi motivada principalmente por pressões de grupos conservadores, incluindo a Igreja Católica e setores militares, que argumentavam que o jogo era moralmente prejudicial e corrompia os costumes da sociedade.

P: Ainda é possível ver algum vestígio desses cassinos em Salvador hoje?

R: Sim. O edifício principal do antigo Hotel da Bahia, que abrigava parte das operações do cassino, ainda está de pé na Praça Castro Alves. Embora o interior tenha sido muito modificado, a fachada é um legado arquitetônico da época. Não há, porém, mesas de jogo ou qualquer operação do gênero no local.

P: O fechamento dos cassinos prejudicou a economia de Salvador?

R: Teve um impacto econômico negativo imediato e significativo. Estima-se que milhares de empregos diretos e indiretos foram perdidos, e o fluxo de um turismo de alto poder aquisitivo diminuiu consideravelmente. A cidade precisou se reinventar e buscar novas bases para seu desenvolvimento turístico ao longo das décadas seguintes.

Conclusão: Uma História de Glamour, Contradições e Lições

A história dos cassinos em Salvador, BA, é um reflexo vívido de um Brasil em transformação, que oscilava entre o desejo de modernidade e internacionalização e os constrangimentos de uma moralidade tradicional. Por um lado, esses estabelecimentos foram vetores de um desenvolvimento urbano e cultural singular, inserindo Salvador em um circuito internacional de luxo e entretenimento, criando empregos e deixando um legado arquitetônico inegável. Por outro, sua existência sempre foi permeada por críticas e conflitos, culminando em um fim drástico que revelou a fragilidade de um modelo econômico baseado em uma atividade polêmica. Conhecer essa trajetória é essencial para entender camadas mais profundas da formação social e turística da primeira capital do Brasil. Para residentes e visitantes, a sugestão é observar a cidade com novos olhos: ao passar pela Praça Castro Alves ou pela orla de Ondina, imagine os salões iluminados, o som do jazz e a atmosfera única de uma Salvador que ousou ser a Riviera do jogo legal. Essa memória, feita de brilho e sombra, é parte inextrincável da rica tapeçaria histórica da Bahia.