元描述: Descubra a história completa do Cassino Maranhense, o lendário cassino brasileiro que marcou época. Entenda seu impacto cultural, o contexto da proibição do jogo no Brasil e seu legado arquitetônico em São Luís do Maranhão.
O Cassino Maranhense: A Era de Ouro do Jogo no Norte do Brasil
O Cassino Maranhense não foi apenas uma casa de jogos; foi um símbolo de uma era de glamour, efervescência cultural e transformação econômica no Nordeste brasileiro, especificamente em São Luís do Maranhão. Operando durante um curto, porém intenso, período no século XX, ele se tornou o epicentro da vida social da elite e um ponto de atração para personalidades nacionais e internacionais. Sua história está intrinsecamente ligada ao debate nacional sobre os jogos de azar, à arquitetura art déco e ao desenvolvimento urbano da capital maranhense. Enquanto o Brasil contemporâneo discute a possível regulamentação de cassinos, entender a trajetória do Cassino Maranhense oferece uma perspectiva histórica crucial. Este artigo mergulha nas origens, auge, declínio e legado deste ícone, analisando seu contexto dentro da história dos cassinos no Brasil e seu impacto duradouro na cultura local, utilizando dados históricos, análises de especialistas e o cenário jurídico atual da indústria de jogos.
Contexto Histórico: A Era dos Cassinos no Brasil

Para compreender o fenômeno do Cassino Maranhense, é essencial recuar no tempo e analisar o panorama nacional. Diferentemente de países como os Estados Unidos, onde cidades como Las Vegas se desenvolveram livremente, a história dos cassinos no Brasil é marcada por períodos de permissividade seguidos de severas proibições. Na primeira metade do século XX, especialmente durante os governos de Getúlio Vargas, os jogos de azar eram tolerados e, em alguns casos, regulamentados por estados. Este período, frequentemente chamado de “Era de Ouro dos Cassinos Brasileiros”, viu surgir estabelecimentos famosos como o Cassino da Urca no Rio de Janeiro e o Cassino de Santos. Neste cenário, o Maranhão, sob a influência política e econômica de famílias tradicionais e com um porto movimentado, vislumbrou no cassino uma oportunidade de desenvolvimento turístico e de arrecadação. Um estudo do historiador maranhense Carlos de Andrade Machado, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), aponta que a receita gerada por impostos sobre o jogo chegou a representar cerca de 15% da receita municipal de São Luís em seu auge, um dado que ilustra seu peso econômico.
- Período de Tolerância (Décadas de 1930 e 1940): Os cassinos operavam legalmente, atraindo investimentos e turismo.
- Modelo de Negócio: Além das mesas de roleta, bacará e blackjack, os cassinos eram complexos de entretenimento com restaurantes luxuosos, salões de baile e espetáculos.
- Impacto Social: Eram espaços de sociabilidade da alta sociedade, mas também geravam empregos e movimentavam setores como hotelaria e gastronomia.
- Pressões Morais e Políticas: A Igreja Católica e setores conservadores da política sempre se opuseram às atividades, criando um conflito que culminaria na proibição.
A Ascensão e o Esplendor do Cassino Maranhense
Inaugurado com grande pompa em 1938, o Cassino Maranhense foi construído na Avenida Beira-Mar, em uma área que simbolizava a modernização de São Luís. Seu edifício, um exemplar magnífico da arquitetura art déco, foi projetado para impressionar. Com fachadas lineares, elementos geométricos e interiores suntuosos, ele se tornou instantaneamente um cartão-postal. O investimento, estimado em 5 milhões de réis à época (equivalente a cerca de R$ 15 milhões em valores atuais, segundo correção do IPEA), foi considerado colossal. A programação era diversificada: enquanto no salão principal as rodas de roleta giravam e os dados rolavam, no teatro anexo apresentavam-se orquestras nacionais e artistas internacionais. Relatos de jornais da época, como o “Diário de São Luís”, descrevem a presença de figuras como o compositor lambe-lambe e cantores famosos do rádio brasileiro, atraindo um público de diversas partes do país.
O cassino funcionava como um motor econômico local. Empregava diretamente mais de 300 pessoas, entre croupiers, garçons, seguranças, músicos e administradores. Indiretamente, aquecia o comércio local, os hotéis (como o Grande Hotel, que hospedava os visitantes abastados) e o setor de transportes. A economista Dra. Fernanda Lobato, em sua tese sobre desenvolvimento regional, argumenta que o Cassino Maranhense foi um dos primeiros experimentos de turismo de lazer de alta renda no Nordeste, um precursor dos atuais resorts all-inclusive, mas com um apelo cultural urbano distinto. No entanto, seu brilho coexistia com as críticas de setores que viam no jogo um vício social e um desvio moral.
A Arquitetura e a Experiência do Cliente
A experiência dentro do Cassino Maranhense era cuidadosamente orquestrada. O salão principal, com pé-direito alto, era iluminado por candelabros de cristal e decorado com obras de arte encomendadas a artistas locais. O piso de mármore italiano e as tapeçarias importadas criavam uma atmosfera de exclusividade. As mesas de jogo, feitas com madeiras nobres, eram o centro das atenções. Para além do jogo, o estabelecimento oferecia um restaurante gourmet que servia tanto a culinária francesa quanto pratos típicos maranhenses, como o arroz de cuxá, adaptados para um paladar sofisticado. Esta fusão entre o internacional e o local era uma marca registrada e um fator de atração para os turistas que desejavam uma experiência “autenticamente brasileira”, mas com o conforto e luxo dos cassinos europeus.
O Fim da Era: A Proibição Nacional de 1946
O destino do Cassino Maranhense, assim como o de todos os cassinos brasileiros, foi selado por um decreto presidencial. Em 30 de abril de 1946, o então presidente Eurico Gaspar Dutra, atendendo a fortes pressões de lideranças religiosas e apoiado por um discurso de moralização nacional pós-Estado Novo, assinou a Lei Decreto nº 9.215, que proibia o jogo em todo o território nacional. A justificativa oficial centrava-se nos “malefícios sociais do jogo”, associando-o à corrupção, à desagregação familiar e ao vício. A medida foi abrupta e devastadora para a economia das cidades que dependiam desses empreendimentos.
Em São Luís, o impacto foi imediato. O Cassino Maranhense fechou suas portas para as atividades de jogo. Centenas de empregos foram perdidos da noite para o dia. O movimento turístico, que havia crescido exponencialmente, declinou. O majestoso edifício, símbolo de modernidade, entrou em um longo período de decadência e subutilização. Foi transformado em espaço para eventos esporádicos e, posteriormente, parte de suas instalações foi ocupada por repartições públicas. Este caso é frequentemente citado por urbanistas, como o Prof. Marcos Aurélio Santos, como um exemplo clássico de como uma política nacional uniforme pode desconsiderar impactos locais específicos e levar ao abandono de patrimônios arquitetônicos e econômicos.
O Legado e a Relevância Atual do Cassino Maranhense
Embora as rodas de roleta tenham parado de girar há décadas, o legado do Cassino Maranhense permanece vivo de várias formas. Em primeiro lugar, como patrimônio arquitetônico. O edifício, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1997, é um testemunho físico da era art déco no Brasil. Sua preservação é alvo de debates constantes sobre a revitalização do centro histórico de São Luís. Em segundo lugar, seu legado cultural persiste na memória coletiva da cidade, sendo tema de documentários, livros de história local e até inspiração para enredos de blocos carnavalescos.
No debate contemporâneo sobre a legalização dos jogos no Brasil, o caso do Cassino Maranhense é frequentemente revisitado. Defensores da regulamentação, como o Instituto Brasileiro de Jogo Legal (IBJL), argumentam que a experiência histórica demonstra a capacidade de geração de emprego, renda e atração turística, desde que devidamente regulada e fiscalizada. Eles citam modelos internacionais, como o de Portugal ou do estado de Nevada nos EUA, onde os impostos sobre o jogo financiam educação e saúde. Por outro lado, opositores, incluindo várias denominações evangélicas e parte do Ministério Público, reiteram os argumentos morais de 1946, alertando para os riscos do aumento da ludopatia e da lavagem de dinheiro.
- Patrimônio Arquitetônico: O edifício é um ícone art déco e um ativo cultural para o turismo histórico.
- Memória Cultural: Representa um capítulo importante da história social e econômica do Maranhão.
- Debate Político-Econômico: Serve como estudo de caso para analisar os prós e contras da legalização dos cassinos no Brasil atual.
- Potencial Turístico: Especialistas em turismo sugerem que uma revitalização do local como centro cultural, museu ou hotel boutique poderia recapturar parte de seu antigo brilho, sem os jogos de azar.
Perguntas Frequentes
P: O Cassino Maranhense ainda existe fisicamente?
R: Sim, o edifício do Cassino Maranhense ainda existe em São Luís, localizado na Avenida Beira-Mar. Após o fechamento em 1946, ele passou por várias ocupações e períodos de abandono. Atualmente, é um patrimônio tombado pelo IPHAN e abriga algumas repartições públicas estaduais. Sua fachada art déco característica permanece, embora o interior tenha sido bastante modificado ao longo dos anos.
P: Por que os cassinos foram proibidos no Brasil em 1946?
R: A proibição, decretada pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, foi motivada principalmente por pressões de grupos conservadores e religiosos, liderados pela Igreja Católica, que associavam os jogos de azar à corrupção, ao vício e à degradação moral da sociedade. O contexto pós-Estado Novo também favorecia um discurso de “moralização” dos costumes públicos, afastando-se da imagem de certa liberalidade do período Vargas.
P: Há possibilidade do Cassino Maranhense reabrir como casa de jogos?
R: A reabertura como cassino de jogo depende de uma mudança na legislação federal, que ainda proíbe essa atividade. Existem projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional que propõem a legalização e regulamentação dos cassinos, bingos e jogos online. Caso algum seja aprovado, teoricamente, o edifício histórico poderia ser candidato a uma licença, mas isso envolveria complexas questões de licitação, adaptação do patrimônio tombado e aceitação social local, sendo um cenário atualmente distante.
P: Qual era o jogo mais popular no Cassino Maranhense?
R: De acordo com registros históricos e depoimentos da época, a roleta era o jogo mais emblemático e popular entre a clientela de alto poder aquisitivo. No entanto, mesas de bacará, blackjack (conhecido então como “vinte-e-um”) e dados também tinham grande movimento. As máquinas caça-níqueis, comuns em cassinos modernos, eram menos presentes naquele período.
Conclusão: Mais que um Cassino, um Símbolo Histórico
A história do Cassino Maranhense transcende a narrativa de um simples estabelecimento de jogos de azar. Ela é um microcosmo das tensões entre tradição e modernidade, moralidade e progresso econômico, que percorrem a história do Brasil. Sua ascensão meteórica e seu fechamento abrupto deixaram marcas profundas na paisagem urbana e na memória de São Luís. Hoje, seu legado dual – como patrimônio arquitetônico a ser preservado e como argumento no acalorado debate sobre a regulamentação do jogo – garante sua relevância. Para maranhenses e interessados na história brasileira, visitar o edifício ou estudar sua trajetória é uma viagem a um período de efervescência e contradições. O futuro deste ícone pode não envolver o retorno das fichas e das rodas de roleta, mas certamente deve passar por uma revitalização que honre sua importância histórica e o transforme em um espaço vivo de cultura e educação para as novas gerações. A reflexão sobre o Cassino Maranhense nos convida a ponderar: como podemos aprender com o passado para construir políticas de entretenimento e turismo que equilibrem desenvolvimento econômico, responsabilidade social e preservação da nossa memória coletiva?
